[...] E os sons dos sinos ecoavam distantes a medida que a cidade se afastava. Não podia permanecer ali por mais nenhum dia. O cavalo seguia agitado pela estrada, a galope acelerado e o homem olhava para trás com frequência, apenas a lua iluminava o caminho por entre a estrada que entrecortava uma fazenda, a colheita estava quase em sua época, o mato alto que se erguia nas bordas da estrada, de cor indistinguivel sobre a luz noturna, encurava-se sobre ela de modo a parecer consumi-la e preenchia com ainda mais sombras os lugares que já eram sombrios por si mesmos.
O cavalo subiu uma colina, e do alto da colina avistaram a cidade que abandonavam, havia luzes na praça, o homem ofegava, seus traços eram gentis, usava uma cartola, seu rosto estava limpo, usava um monóculo, que com a correria se desprendera e agora estava pendurado, preso por uma corrente dourada ao capote negro, do rosto fino brotavam gotas de suor, e os olhos profundamente escuros fitavam a cidade com uma expressão mista entre o temor e o ódio. O capote aberto mostrava um colete e uma camisa branca, havia um broche, com o simbolo leonal nele, podia se ver também um bolso onde estaria um relogio ou coisa parecida. Na cintura carregava uma sabre bem adornada, e doutro lado uma pistola de polvora, as longas calças negras combinavam com o restante do conjunto e terminavam em botas leves, de couro duro e escurecido, mais apropriadas para cidades do que para estradas.
Desceu do cavalo, olhou para o lado oposto da cidade, tudo estava consumido pelas sombras da noite e a luz lunar lutava e perdia uma batalha contra todo um mundo de trevas, quase não iluminava, nunca além de uma densa paisagem de contornos escuros que quase não contrastavam. Não haviam estrelas no céu, e de repente, a própria Lua se escondeu por trás de uma nuvem, trazendo a escuridão total - o homem fechou os olhos, era um.
Conseguia ouvir os cavalos de seus algozes se aproximando.
Por que fora traído daquela forma?
Já não havia mais forças para resistir, decidira acabar com aquela história ali, na escuridão onde começara, e lutar, em seu habitat natural, contra aqueles que um dia lhe juraram lealdade, e levar quantos fosse possivel para qualquer lugar amaldiçoado que o esperava após a sua morte.
- E desembainhou a bela sabre.
Abriu os olhos, era outro, e mandou seu cavalo embora.
É que a Lua já sabia e se recusou a ver. E deu ao homem a escuridão desejada - e em meio as sombras, os gritos e os cortes, se misturavam ao grito de dor e as gargalhadas do espadachim, que com sua pompa de cavaleiro honrado, escondia dentro de si, monstro temeroso.
Riu, gargalhou, e matou por toda a noite.
E pela manhã, chorou, honrou e sepultou seus inimigos.
E sofria sempre assim - condenado a viver dividido em dois dentro de si,
e nunca conseguir tirar a própria vida.
Assim era "O Nasni", o espadachim louco.
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